segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

o poema que me enviarias...


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

domingo, 27 de janeiro de 2008

Raios de Luz 8ºCap.


É intolerável, este desassossego inquestionável de uma vivência sem ti...
As horas espraiam-se por mundos nunca trilhados, e as noites iluminam-se em insónias intermináveis. O futuro clama numa vontade gritante, o teu odor caracteristico e os segundos românticos e cheios daquele teor carnal que se encontrava em nós no passado...
Já não sinto a tua falta. Desespero com ela. As tuas lágrimas enchem o copo que olho e vejo meio vazio, enquanto tu o vês meio cheio, cheio da paz que não tinhamos.
Olho pra ti e vejo o teu crescendo, ensurdecedor e maravilhoso, que me fazia sorrir e chorar á mesma velocidade incontornável.
Senti o teu olhar como uma pauta, a que fui tentando lentamente acrescentar notas de uma nova sinfonia, apenas conseguindo o sucesso post-mortem dos consagrados conpositores da Vida.
Precisei morrer por dentro. Agora, já num plano existencial alternativo, descubro á velocidade da areia a escorrer na ampulheta do destino, que morrer não leva as mágoas, e que viver deixa sempre as preocupações terrenas.
A confusão vai alastrando nesta mente, podre das metas inalcançadas, escorrendo a tristeza que apenas a felicidade poderá levar.
Não durmo, não dormes, falamos em linhas de telefones que não querem gritar as nossas vozes, nem transportar as dores que desejam enterrar junto com o Tempo, passado em vão em gritarias jamais esquecidas...
Perco-me na escita deste livro. Estás a ouvir-me? Não vou desistir. Amo-te.
E, nos livros, o amor vence sempre.

sábado, 26 de janeiro de 2008

"Running up that Hill" - Kate Bush 1985

"If I only could, I'd be running up that hill.
If I only could, I'd be running up that hill."

It doesn't hurt me.
Do you want to feel how it feels?
Do you want to know that it doesn't hurt me?
Do you want to hear about the deal that I'm making?
You, it's you and me.

And if I only could,
I'd make a deal with God,
And I'd get him to swap our places,
Be running up that road,
Be running up that hill,
Be running up that building.
If I only could, oh...

You don't want to hurt me,
But see how deep the bullet lies.
Unaware I'm tearing you asunder.
Ooh, there is thunder in our hearts.

Is there so much hate for the ones we love?
Tell me, we both matter, don't we?
You, it's you and me.
It's you and me won't be unhappy.

And if I only could,
I'd make a deal with God,
And I'd get him to swap our places,
Be running up that road,
Be running up that hill,
Be running up that building,
Say, if I only could, oh...

You,
It's you and me,
It's you and me won't be unhappy.

"C'mon, baby, c'mon darling,
Let me steal this moment from you now.
C'mon, angel, c'mon, c'mon, darling,
Let's exchange the experience, oh..."

And if I only could,
I'd make a deal with God,
And I'd get him to swap our places,
Be running up that road,
Be running up that hill,
With no problems.

And if I only could,
I'd make a deal with God,
And I'd get him to swap our places,
Be running up that road,
Be running up that hill,
With no problems.

And if I only could,
I'd make a deal with God,
And I'd get him to swap our places,
Be running up that road,
Be running up that hill,
With no problems.

If I only could
Be running up that hill
With no problems...

"If I only could, I'd be running up that hill.
If I only could, I'd be running up that hill."

Raios de Luz 7ºCap.


Deixa-me secar as tuas lágrimas, essas lágrimas que te correm em cascata pelo rosto.
Deixa-me voltar a amar-te, matar as nossas saudades, esquecer o mundo lá fora... ajuda-me a estar perto de novo, eu que tanto que quero, que caminho pelas trilhas dolorosas do afastamento forçado de quem amo...
Depois desta manhã, já não poderemos mais esconder o amor que nos une ainda, que nos faz morrer de saudade e sofrer na distância a que somos obrigados...
Podemos ainda salvar-nos deste abismo meu amor, por favor, deixa que o mundo gire sem medos, afasta de mim esta dor, esta vontade que tenho de te amar de novo.
Nunca poderei ser feliz sem ti, ainda que as promessas tenham brotado dos meus lábios, nunca poderei amar um outro alguém quando foi a ti que o meu coração escolheu.
Tivemos a prova viva que o amor é mais forte e mais profundo que todas as dores do nosso universo pessoal, já não poderemos mais magoar-nos mutuamente, já não temos de sofrer os espinhos de um passado que podemos esquecer.
Deixa-me secar as tuas lágrimas meu amor, fazer-te feliz. Nunca quis abrir a ferida que vejo agora em tua alma, nunca agi com intenção de te fazer morrer. Não morras agora, meu André, nem nos deixes morrer tão perto de ultrapassar todas as mágoas...

Continuo a estar dentro de ti... e tu continuarás para sempre em mim.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Raios de Luz 6ºCap.

Já se passaram tantos dias e eu ainda não consigo dormir. Já se passaram tantos dias e ainda não consigo comer. Não consigo pensar nem respirar nem sequer falar. Preciso de estar sozinha e tenho um mundo á volta que não me deixa meditar, não me permite que pense, que sonhe, que sofra.
Preciso de espaço. Desde que nos separamos a minha vida transformou-se num mar de espinhos, numa dor aguda e constante que me corta a carne e me aniquila a alma.
Quando falamos, simulamos as conversas como se a dor não existisse e nem sequer as memórias estivessem presentes em nós. Mantenho a fachada, falo-te com calma, esforço-me por esquecer que falo com quem faz com que tenha arrependimentos pra carpir.
Como estás tu sem mim ai? Talvez olhes a nossa casa e te lembres. Ou talvez nem sequer queiras lembrar. Já não entendo nada deste mundo imperfeito que me moldou a sua imagem.
Que faço? Morro por dentro sem saber como emergir.
Sinto-te a falta. Ainda te sinto em mim.
Estou perdida outra vez…

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Raios de Luz 5ºCap.

Ecoam-me na cabeça os gritos que enterramos nas paredes onde me fizeste feliz.
Doem-me no corpo as horas de lágrimas e as violações do amor que te tenho.
És um snob. Nem sempre tens razão, e por vezes a tua doçura faz de ti um homem mau. Como posso ainda amar-te? Arrancaste-me pela boca a alma, destruiste em milésimos de pedaço todo o meu carinho.
A culpa é minha. Não fui capaz de cumprir as obrigações, contornar as tormentas que a vida nos trouxe. Não soube lutar.
A culpa é tua. Não foste capaz de me segurar quando eu caí, de esconder o desalento do teu rosto. Não soubeste amar-me.
Agora estás longe de mim e tudo me faz ver-te, sentir-te, pensar-te.
Dizes que não nos separamos porque nunca estivemos juntos. Continuas a preocupar-te com as aparências frente a um mundo cheio de podres. não confies, dizes tu. mas eu confio em ti e tu não me queres perto.
Detesto-te. Se me amas, vem buscar-me, mesmo não estando comigo. Diz-me que me queres e eu sou tua em horas marcadas que te convenham e não interfiram com a tua ocupada existência.
Faço tudo, nada e qualquer coisa pra voltar a ter a tua mão no meu bolso e a tua alma junto á minha. Só não me mates mais.
Já não posso voltar a morrer, nem por ti, que és o homem que amo.
Fizeste-me feliz, e anulaste essa felicidade com as tuas exigências de ser imperfeito.
Não te magoes, por favor, e não me esqueças. Não me esqueças, nunca me esquºas, daqui a dez anos tens uma promessa a cumprir. até lá a dor passa... e talvez sejamos outra vez nós.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Raios de Luz 4ºCap.

Na penumbra do nosso quarto, ouço o toque do progresso ás sete e meia da manha, o que significa na minha cabeça que ainda é de madrugada… a porcaria do telemóvel e a minha mania de não o colocar em silêncio á noite tem destas coisas. Mas então apercebo-me de que não dormes a meu lado na cama e abro os olhos. Se não fosse por isso, a tal coisinha bem podia avariar de tanto tocar, que me era igual ao litro…
Onde estás, meu amor? Ah, é verdade, o meu cérebro recorda-se a uma velocidade impensável, tendo em conta as horas que tu ontem foste jantar ao Porto, e depois ias com o resto da malta prós copos.
E não voltaste? Pois, ias ficar em casa de um amigo. Finalmente, o meu discernimento matinal diz-me que o toque afinal era uma mensagem, – a esta hora confundo tudo, raios partam os toques reais do bicho – Dizes-me que te estás a deitar – ás sete e meia? Onde raio andaste até esta hora? – E que me ligas mais logo. Mas eu quero é que me ligues agora, pra ouvir a tua voz, quero saber qual o teu estado neste momento e não mais tarde. Não tenho saldo, merda, corre sempre tudo ao contrário… códigos de rede, kolmi, e ai está, ouço a tua voz do outro lado.
Estás bem, e pra minha surpresa estás sóbrio, não arrastas a voz e entendes cada palavra do que te digo. Rabujas aquele beijo de quem deve horas á cama e desligas cheio de ternura.
Caramba, agora já não consigo dormir…
Onde meti o comando da Tv? Apercebi-me agora que adormeci toda torta e com almofadas a mais e estou completamente desfeita. Dói-me o corpo todo. Nunca durmo bem quando não estás… é como se tivesse um tiquetaque na cabeça que rebenta como uma bomba mal sinto o vento da porta a abrir… penso em acender um cigarro, mas tenho de comer (acho que finalmente estou a ganhar consciência) e levanto-me pra ir á cozinha.
Porra, é Dezembro e está um frio de rachar, como dizia o Rui. Lá desço e aqueço o leite, pego num pedaço de bolo que já sei que não me apetece e volto pra cama a tremer. Não dá nada de jeito na televisão, ainda tentei ver as noticias, mas não estou com disposição pra tragédias logo de manhã e o homem já me está a falar de uma bombista paquistanesa, é melhor mudar de canal… nha nha nha, séries da treta, pego num livro mas não á concentração, acendo outro cigarro, bebo mais um bocado de leite, e pronto, tenho de ir buscar o PC… vícios da treta estes da minha geração… geração GAP, a minha mãe na minha idade já andava lá fora á imenso tempo, e eu nem consigo abrir a cortina, que a claridade da manhã fere-me os olhos…
Estava a imaginar-te a ler esta narrativa infindável e a dizer outra vez que eu penso demais, falo demais e escrevo mais ainda…
É, tu dizes que eu falo demais. Mas a verdade é que não compreendes que eu te digo tudo é quando estou calada e te conto assim quem sou. Quando eu te olho com aquela carinha de carneiro mal morto, normalmente em situações… hum…delicadas, digamos assim, fica melhor, tu perguntas sempre, sempre, se se passa alguma coisa. Eu tento explicar que estou a sentir-te, a ler-te, a falar-te ao coração, mas fico sempre com a sensação que não entendes nada. São coisas de gaja meu amor, e vocês homens, por muito sensíveis que sejam, nunca foram gajas e não podem entender-nos a cem por cento.
Olha, ligaram agora de Barcelona, valha-me deus, está mesmo a acontecer e no dia um de Fevereiro tenho de lá estar, e como vai ser connosco? Isso é que me assusta... tenho um medo infinito de te perder no espaço da uma hora que o avião demora a chegar do Porto lá e não te ter á minha espera no gateway do aeroporto quando eu regressar…
Raios! a TV estava naquele canal de música clássica e por momentos o nosso quarto parecia uma câmara ardente, por momentos quase senti o cheiro a flores podres por cima do cheiro a tabaco… vais matar-me por causa deste cheiro, mas está tanto frio que eu nem coragem tenho de abrir a porta do quarto. Hei, lembrei-me agora, hoje é sexta feira e daqui a pouco está ai a empregada a bombar com o aspirador, sim, que ela não se importa nada se eu estou ou não a dormir, coitada da senhora, que leva sempre comigo e afinal até é boa pessoa.
Voltando onde eu ia – já me perdi no raciocínio, mas isto é mesmo assim – tenho um receio imenso de te perder em Portugal enquanto estou em Barcelona, mas serão apenas quatro meses de sacrifício, em que me comes só aos fins-de-semana, quando eu vier cá ou tu me fores visitar, e depois quero-te lá comigo e eu sei que tu queres ir também. Tenho de tratar de arranjar um sítio mais barato pra viver porque 400€ por um quarto é um exagero, eu até fiquei parva quando o meu connect me disse isso.
Mais um cigarro, á decisões que tenho de tomar, como o facto de continuar ou não naquele trabalho que me está a matar na pastelaria, escada acima, escada abaixo horas e horas a fio, o corpo não descansa, vá, desliga a mente e sê um autómato e eu já não consigo mais. agora que eu queria que o telemóvel se dignasse a tocar, está mudo, não quer saber de mim… Caraças, que raio de vida, toca bichinho vá lá. O Rogério já me ligava. Ou o Florindo. Ou alguém. Porra, já são dez e meia. Ninguém dorme ás dez e meia. Só eu.

Raios de Luz 3ºCap.

Sinto as nuances de mais um dia a clarear o meu rosto.
Sempre detestei ter de acordar cedo, sabes? Claro que sabes… Ainda por cima, pra completar o bolo, é Inverno, caramba, mais uns dias apenas e é natal. Este ano voou através de mim…
Neste café onde me sento, tentando pensar, as pessoas que me rodeiam desenrolam novelos intermináveis de banalidades e burocracias, e as pessoas que trabalham vão desfiando a meada do tempo, esperando que ele corra. Sei que é verdade porque eu mesma o faço, dia após dia, atrás daquele fastidioso balcão. Não escolhemos o que fazemos e amamos apenas o que escolhemos…
Hoje tu não estás. A tua agenda demasiado atolada de estudante universitário fez com que, por uma vez, te levantasses de manhã cedo. Tens de trabalhar, dizes-me tu. Eu acredito com uma ponta de descrédito, porque sei que são subterfúgios que nos roubam tempo, que nos roubam vontades e formas de estarmos em comunhão connosco.
Se assim não fosse, a noite passada teríamos aproveitado o correr fugidio das horas, e não teríamos estado abandonados a uma solidão provocada. Do meu cansaço, tirei as horas de sono essenciais e fui encontrar-te numa névoa fumarenta. Arrastei-te o carinho e o frio para a casa gélida onde de seguida entramos, ansiando pelo calor que os meus braços te queriam oferecer, mas na chegada, tu fechaste a tua concha e deixaste-me ao relento.
Quando a noite cair hoje, eu vou estar no quotidiano de sempre, encarcerada atrás do balcão das migalhas, enquanto tu te divertes sei lá eu com quem. Já te disse, porque perguntas de novo, eu confio desconfiada, com medo do que um copo a mais poderá trazer para a minha paz. Quem somos nós afinal?
O incenso vai queimando lentamente e eu vou observando devagar, sentindo o seu cheiro azul no ar…
Os beijos que eu preciso acabaram, o stock do carinho esgotou e eu não posso pedir mais. Arruínas tudo o que sou com o teu mimo fugaz, como se o desses por obrigação em tempo marcado – arranjas pra mim uma hora na agenda por favor? – E eu não consigo conciliar os horários e agendar uma reunião…
Sinto-me banalizar tudo o que te dou, porque já não sei o que inventar pra te fazer feliz. Oferece-me um dia de abraços, enrola-me em ti, e esquece os colares de contas, as jóias compradas com a ternura de um Multibanco.
Volto as costas á tristeza e revivo momentos em que me arrastaste pela casa, me comeste freneticamente, num desejo inalcançável, prendo-me a passeios casuais sob luzes natalícias e aprendo de novo a gostar do natal porque já uma vez me ensinaste a faze-lo…
O vento sopra de novo lá fora. A mim, já nada me importa, a não ser a minha alma, o meu carma destroçado por vivências jamais vividas. O cansaço acumula-se em mim uma vez mais e o corpo rosna os sorrisos que não poderá mostrar. Bebo a força de um dia num copo de sumo de laranja e abandono a escrita, porque pra hoje, a cabeça perde-se em devaneios e já não dá mais. A areia da ampulheta esvaiu-se quando ela caiu ao chão e de partiu nos ínfimos pedaços daquelas lágrimas que eu já não choro. Não te rias, já te disse que não sou poeta. Sou aprendiz do coração dos outros.

Raios de Luz 2ºCap.

És assim. Bruto e absolutamente banal.
Fiz de ti o Rei do meu reino e tu deitaste pela janela a oportunidade de me fazer feliz. Não hoje, não ontem, mas em imbatíveis e sucessórias situações que me roeram o espírito como uma traça rói um pedaço velho de tecido.
Amo-te e tenho-te raiva. Esta contrariedade aos ditames do meu coração baralha-me o raciocínio de uma irracionalidade mundana.
Fazes de mim boneca de trapos, mas continuo a fazer de ti o meu homem.
Espezinhas a minha auto-estima, mas eu continuo a sorrir porque, de vez em quando, me fazes um carinho.
Achas que a tua vida não tem de mudar só porque me deixaste cair dentro dela, e julgas que amar é partilhar um espaço como quem divide uma casa.
Mentiram-te sobre o final desta história meu amigo, estás a perder a mulher que sou e a que moldaste a teu bel-prazer.
Durante um tempo, eu fui quem pensei que querias que eu fosse, eliminei-me do mapa pela perdição dos amantes que poderíamos ter sido, deitei-me nas mágoas de uma cama que não era a minha, mas que quis acreditar que sim.
Nesta casa onde vivemos, até o ar que respiro me parece roubado. Tudo tem o teu toque, o teu gesto, o teu cheiro, e nada me parece meu… não existe uma ponta de mim aqui. Hoje em dia penso que esta relação a prazo talvez nunca se torne nossa. Será para sempre apenas minha, porque nela, eu luto sozinha e perco-me em delírios poéticos de quem és.
Talvez sejas sempre apenas um estudante bruto, perdido, egoísta, que me esqueceu, quem sabe num paredão á beira-mar.
É assim que ainda te guardo, mesmo depois de tudo.
Sou rancorosa, porque me tornaste assim.

Raios de Luz

Para ti, a vida é demasiado simples e complexa. Simplificas o mínimo e confuso detalhe dessa rede baralhada chamada existência.
Em surdina, condenas-me pela impercepção do teu básico, cortas as amarras da nossa verdade absoluta, ou quem sabe, inexistente.
Sabes como te sinto? Uma tese de mestrado existencial, móvel. Um apanhado do melhor e do pior de todos os anos da minha vida, das minhas leituras, do meu sublime e espontâneo estudo. Chumbei nos primeiros meses, quase até ao final do primeiro semestre daquilo que somos, andei perdida, afogada no lago de uma pesquisa aprofundada de uma cadeira que descobri não ser minha. Ou então… era minha, mas ainda não era nossa.
Vou esquadrinhando quem és, buscando algo incessantemente, não sei bem o quê, apenas aquele algo que tu tens e eu gosto. És como uma música em crescendo, ensurdecedora, que entra e vai roendo um cantinho até que se instala e passa a fazer parte de nós mesmos. Contas uma verdade perdida nos ecos do tempo. Como eu mesma, tens sempre uma resposta pra tudo. Ás vezes zangas-te comigo por isso.
Raios te partam, ás vezes magoas.
Achas que ás incapaz de pensar primeiro em fazes alguém feliz, com algo tão subtil como um elogio ao cabelo, ao olhar, ao brilhozinho dos olhos. És demasiado egocêntrico para entender este método simplex desta coisa chamada amor. Sim, sim… essa treta em que passamos a crer quando alguém para nós se torna o próprio ar que respiramos.
Crês na verdade absoluta até mesmo quando a corrupção salta á vista de todos. És surreal, ás vezes.
Houve uma época em que cometi o crasso erro de te mentir. E tu não foste capaz de compreender que, naqueles momentos, eu menti para nos salvar de um mal maior, para nos proteger das tempestades. Interpretei de forma errada a salvação de um sentimento apátrida.
Passo os dias a tentar compreender-te. Sentir-te. Ler-te, investigar o que te vai na mente. Nos momentos de trabalho, de mimo. Nas horas avassaladoras em que me comes. Sim, leste bem. Eu sei que não gostas, mas olha, paciência – não á palavra mais perfeita.
Tento sempre ser uma pessoa bonita, uma senhora, nossa senhora, minha, tua e de toda a gente, mas esta é uma imagem dura de manter. Nessas alturas, quando me comes, sou simplesmente a imagem mais pura de mim mesma. Devoras-me a carne e eu sinto-me devorada na alma. Um animal nos seus derradeiros momentos de vida, tentando sugar um raio de ternura do seu carrasco que o vá impedir de morrer. Mata-me. Eu entrego-me como uma virgem em sacrifício ao seu deus. Oh, que deliciosa ironia! Mas esse deus, que talvez nem exista, é volátil e quase nunca permissivo, mas voluntarioso e com laivos de misericórdia.
Disseste-me algumas vezes que sou boa na cama. Hum… acho-te graça e sinto-me sexy. Sinto este tremor que percorre o meu corpo e me faz transpirar. Sou apenas e nada mais que uma gota de suor, a difusa quantificação do meu desejo. Tenho esta vontade terrífica de ser pioneira dos teus olhos, da tua ternura. A cada passo esbarramos nos momentos perfeitos, aqueles em que esta coisa lamechas chamada romance aparece e eu acho que esse algo é único e inovador, e no final das contas tu dizes que o meu algo especial já aconteceu contigo e com uma das galdérias do teu passado. Entediante, na verdade. Rouba a vontade de experimentar surpreender-te.
Aqui á tempos, mostraste-me a tua surpresa por já não teres mulher nenhuma além de mim, e isso apanhou-me desprevenida. Disseste mesmo qual o amontoado de tempo. 5 Meses. Mas, isso de contar o tempo não era coisa de gaja?! Pronto, desculpa, pensei que fosse.
A esta altura do campeonato tens estampado na cara aquele teu sorriso que diz «cabra», como quem goza. Aquele sorriso que me faz querer ser devorada.
É engraçado (funny, isn’t it?), no seu melhor estilo de humor british, recheado a humor negro, como passar quem tu és para o papel me faz estar sentada numa mesa de um café atolado de gente (mas com pouquíssimas pessoas, na verdadeira afinição da palavra) prestes a ter um orgasmo.
Mas a vida é assim, e tu és assim, mesmo quando me dás seca, que é o caso, eu venho-me enquanto espero, porque na minha cabeça as tuas mãos tocam-me como só tu sabes tocar. Tocas-me como se fosses uma gaja.

Mas ei… sossega… eu só grito quando estou contigo.