Na penumbra do nosso quarto, ouço o toque do progresso ás sete e meia da manha, o que significa na minha cabeça que ainda é de madrugada… a porcaria do telemóvel e a minha mania de não o colocar em silêncio á noite tem destas coisas. Mas então apercebo-me de que não dormes a meu lado na cama e abro os olhos. Se não fosse por isso, a tal coisinha bem podia avariar de tanto tocar, que me era igual ao litro…
Onde estás, meu amor? Ah, é verdade, o meu cérebro recorda-se a uma velocidade impensável, tendo em conta as horas que tu ontem foste jantar ao Porto, e depois ias com o resto da malta prós copos.
E não voltaste? Pois, ias ficar em casa de um amigo. Finalmente, o meu discernimento matinal diz-me que o toque afinal era uma mensagem, – a esta hora confundo tudo, raios partam os toques reais do bicho – Dizes-me que te estás a deitar – ás sete e meia? Onde raio andaste até esta hora? – E que me ligas mais logo. Mas eu quero é que me ligues agora, pra ouvir a tua voz, quero saber qual o teu estado neste momento e não mais tarde. Não tenho saldo, merda, corre sempre tudo ao contrário… códigos de rede, kolmi, e ai está, ouço a tua voz do outro lado.
Estás bem, e pra minha surpresa estás sóbrio, não arrastas a voz e entendes cada palavra do que te digo. Rabujas aquele beijo de quem deve horas á cama e desligas cheio de ternura.
Caramba, agora já não consigo dormir…
Onde meti o comando da Tv? Apercebi-me agora que adormeci toda torta e com almofadas a mais e estou completamente desfeita. Dói-me o corpo todo. Nunca durmo bem quando não estás… é como se tivesse um tiquetaque na cabeça que rebenta como uma bomba mal sinto o vento da porta a abrir… penso em acender um cigarro, mas tenho de comer (acho que finalmente estou a ganhar consciência) e levanto-me pra ir á cozinha.
Porra, é Dezembro e está um frio de rachar, como dizia o Rui. Lá desço e aqueço o leite, pego num pedaço de bolo que já sei que não me apetece e volto pra cama a tremer. Não dá nada de jeito na televisão, ainda tentei ver as noticias, mas não estou com disposição pra tragédias logo de manhã e o homem já me está a falar de uma bombista paquistanesa, é melhor mudar de canal… nha nha nha, séries da treta, pego num livro mas não á concentração, acendo outro cigarro, bebo mais um bocado de leite, e pronto, tenho de ir buscar o PC… vícios da treta estes da minha geração… geração GAP, a minha mãe na minha idade já andava lá fora á imenso tempo, e eu nem consigo abrir a cortina, que a claridade da manhã fere-me os olhos…
Estava a imaginar-te a ler esta narrativa infindável e a dizer outra vez que eu penso demais, falo demais e escrevo mais ainda…
É, tu dizes que eu falo demais. Mas a verdade é que não compreendes que eu te digo tudo é quando estou calada e te conto assim quem sou. Quando eu te olho com aquela carinha de carneiro mal morto, normalmente em situações… hum…delicadas, digamos assim, fica melhor, tu perguntas sempre, sempre, se se passa alguma coisa. Eu tento explicar que estou a sentir-te, a ler-te, a falar-te ao coração, mas fico sempre com a sensação que não entendes nada. São coisas de gaja meu amor, e vocês homens, por muito sensíveis que sejam, nunca foram gajas e não podem entender-nos a cem por cento.
Olha, ligaram agora de Barcelona, valha-me deus, está mesmo a acontecer e no dia um de Fevereiro tenho de lá estar, e como vai ser connosco? Isso é que me assusta... tenho um medo infinito de te perder no espaço da uma hora que o avião demora a chegar do Porto lá e não te ter á minha espera no gateway do aeroporto quando eu regressar…
Raios! a TV estava naquele canal de música clássica e por momentos o nosso quarto parecia uma câmara ardente, por momentos quase senti o cheiro a flores podres por cima do cheiro a tabaco… vais matar-me por causa deste cheiro, mas está tanto frio que eu nem coragem tenho de abrir a porta do quarto. Hei, lembrei-me agora, hoje é sexta feira e daqui a pouco está ai a empregada a bombar com o aspirador, sim, que ela não se importa nada se eu estou ou não a dormir, coitada da senhora, que leva sempre comigo e afinal até é boa pessoa.
Voltando onde eu ia – já me perdi no raciocínio, mas isto é mesmo assim – tenho um receio imenso de te perder em Portugal enquanto estou em Barcelona, mas serão apenas quatro meses de sacrifício, em que me comes só aos fins-de-semana, quando eu vier cá ou tu me fores visitar, e depois quero-te lá comigo e eu sei que tu queres ir também. Tenho de tratar de arranjar um sítio mais barato pra viver porque 400€ por um quarto é um exagero, eu até fiquei parva quando o meu connect me disse isso.
Mais um cigarro, á decisões que tenho de tomar, como o facto de continuar ou não naquele trabalho que me está a matar na pastelaria, escada acima, escada abaixo horas e horas a fio, o corpo não descansa, vá, desliga a mente e sê um autómato e eu já não consigo mais. agora que eu queria que o telemóvel se dignasse a tocar, está mudo, não quer saber de mim… Caraças, que raio de vida, toca bichinho vá lá. O Rogério já me ligava. Ou o Florindo. Ou alguém. Porra, já são dez e meia. Ninguém dorme ás dez e meia. Só eu.
Onde estás, meu amor? Ah, é verdade, o meu cérebro recorda-se a uma velocidade impensável, tendo em conta as horas que tu ontem foste jantar ao Porto, e depois ias com o resto da malta prós copos.
E não voltaste? Pois, ias ficar em casa de um amigo. Finalmente, o meu discernimento matinal diz-me que o toque afinal era uma mensagem, – a esta hora confundo tudo, raios partam os toques reais do bicho – Dizes-me que te estás a deitar – ás sete e meia? Onde raio andaste até esta hora? – E que me ligas mais logo. Mas eu quero é que me ligues agora, pra ouvir a tua voz, quero saber qual o teu estado neste momento e não mais tarde. Não tenho saldo, merda, corre sempre tudo ao contrário… códigos de rede, kolmi, e ai está, ouço a tua voz do outro lado.
Estás bem, e pra minha surpresa estás sóbrio, não arrastas a voz e entendes cada palavra do que te digo. Rabujas aquele beijo de quem deve horas á cama e desligas cheio de ternura.
Caramba, agora já não consigo dormir…
Onde meti o comando da Tv? Apercebi-me agora que adormeci toda torta e com almofadas a mais e estou completamente desfeita. Dói-me o corpo todo. Nunca durmo bem quando não estás… é como se tivesse um tiquetaque na cabeça que rebenta como uma bomba mal sinto o vento da porta a abrir… penso em acender um cigarro, mas tenho de comer (acho que finalmente estou a ganhar consciência) e levanto-me pra ir á cozinha.
Porra, é Dezembro e está um frio de rachar, como dizia o Rui. Lá desço e aqueço o leite, pego num pedaço de bolo que já sei que não me apetece e volto pra cama a tremer. Não dá nada de jeito na televisão, ainda tentei ver as noticias, mas não estou com disposição pra tragédias logo de manhã e o homem já me está a falar de uma bombista paquistanesa, é melhor mudar de canal… nha nha nha, séries da treta, pego num livro mas não á concentração, acendo outro cigarro, bebo mais um bocado de leite, e pronto, tenho de ir buscar o PC… vícios da treta estes da minha geração… geração GAP, a minha mãe na minha idade já andava lá fora á imenso tempo, e eu nem consigo abrir a cortina, que a claridade da manhã fere-me os olhos…
Estava a imaginar-te a ler esta narrativa infindável e a dizer outra vez que eu penso demais, falo demais e escrevo mais ainda…
É, tu dizes que eu falo demais. Mas a verdade é que não compreendes que eu te digo tudo é quando estou calada e te conto assim quem sou. Quando eu te olho com aquela carinha de carneiro mal morto, normalmente em situações… hum…delicadas, digamos assim, fica melhor, tu perguntas sempre, sempre, se se passa alguma coisa. Eu tento explicar que estou a sentir-te, a ler-te, a falar-te ao coração, mas fico sempre com a sensação que não entendes nada. São coisas de gaja meu amor, e vocês homens, por muito sensíveis que sejam, nunca foram gajas e não podem entender-nos a cem por cento.
Olha, ligaram agora de Barcelona, valha-me deus, está mesmo a acontecer e no dia um de Fevereiro tenho de lá estar, e como vai ser connosco? Isso é que me assusta... tenho um medo infinito de te perder no espaço da uma hora que o avião demora a chegar do Porto lá e não te ter á minha espera no gateway do aeroporto quando eu regressar…
Raios! a TV estava naquele canal de música clássica e por momentos o nosso quarto parecia uma câmara ardente, por momentos quase senti o cheiro a flores podres por cima do cheiro a tabaco… vais matar-me por causa deste cheiro, mas está tanto frio que eu nem coragem tenho de abrir a porta do quarto. Hei, lembrei-me agora, hoje é sexta feira e daqui a pouco está ai a empregada a bombar com o aspirador, sim, que ela não se importa nada se eu estou ou não a dormir, coitada da senhora, que leva sempre comigo e afinal até é boa pessoa.
Voltando onde eu ia – já me perdi no raciocínio, mas isto é mesmo assim – tenho um receio imenso de te perder em Portugal enquanto estou em Barcelona, mas serão apenas quatro meses de sacrifício, em que me comes só aos fins-de-semana, quando eu vier cá ou tu me fores visitar, e depois quero-te lá comigo e eu sei que tu queres ir também. Tenho de tratar de arranjar um sítio mais barato pra viver porque 400€ por um quarto é um exagero, eu até fiquei parva quando o meu connect me disse isso.
Mais um cigarro, á decisões que tenho de tomar, como o facto de continuar ou não naquele trabalho que me está a matar na pastelaria, escada acima, escada abaixo horas e horas a fio, o corpo não descansa, vá, desliga a mente e sê um autómato e eu já não consigo mais. agora que eu queria que o telemóvel se dignasse a tocar, está mudo, não quer saber de mim… Caraças, que raio de vida, toca bichinho vá lá. O Rogério já me ligava. Ou o Florindo. Ou alguém. Porra, já são dez e meia. Ninguém dorme ás dez e meia. Só eu.
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